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O LOBISOMEM


Joaquim Passos era homem que gostava de diversão.. lá pelos idos de 1920 era dono de uma fazenda imensa no Crato, Ceará, localizado no sopé da Chapada do Araripe, extremo sul do estado, região do Cariri,  terra onde nasceu Padre Cícero. Trabalhava duro, mas gostava de dançar forró.  Neto de Holandeses, herdeiro, olhos azuis profundos,  tinha se casado com a bela Maria Suares de apenas 13 anos de idade, ele com 26. Agora que o casamento estava indo bem, a levava para dançar sempre que podia. 

A fazenda de Joaquim Passos era muito grande, havia colonos morando nas terras para a manutenção das plantações de milho, feijão, mandioca e arroz para comércio, criação de animais e outros itens, agricultura de sobrevivência para as famílias que viviam na fazenda.  Era tão grande a fazenda, que na época da colheita  ele contratava o dobro de mão de obra intinerante e os acomodava da melhor maneira.  Toda semana mandava matar boi, porcos e muitas galinhas para alimentar os trabalhadores.  Era um bom patrão, gostavam dele. Embora rude,  tinha respeito pelo trabalho das pessoas, como era comum na zona rural da Holanda: ensinavam e prezavam bons trabalhadores.

Uma certa noite de sábado,  Joaquim convida Maria pra dançar. Tinham que se locomover a cavalo por muitas léguas de distância, até chegar no forró mais conhecido no centro de Juazeiro.  Maria um pouco receosa lembrou a ele que, além de ser já noite, havia comentários sobre um lobisomem rondando a área. Além disso, iam deixar as crianças sozinhas,  Luís, Josefa e Maria, todos pequenos.  Mas Joaquim insistiu, tava querendo muito se distrair e dançar com a mulher.  Lembrou à Maria que era noite de lua cheia, ele estava bem armado e eles iam no melhor cavalo da fazenda, o cavalo preferido de Joaquim, forte e veloz. Nada o faria recuar da festança naquela noite!  “Vamos mulher! Te apronta! R´umbora!!”

Maria se arrumou com aprumo... era uma bela mestiça de olhos verdes brilhantes, neta de holandês casado com uma índia, valente como uma sussuarana!  Joaquim era valente, mas quando ela cravava nele aqueles olhos verdes profundos e apertava os lábios de raiva, ele sabia que devia ceder para o bem da própria pele.  Qualquer um tremia ao som de sua voz: “vá fazer o que mandei!!  É agora!!”  Fazia ou o coro comia, bem por aí.

Diga-se de passagem que Maria tinha 12 anos quando Joaquim Passos se apaixonou por ela, é claro que ela era uma menina, não pensava em namoro. Joaquim já tinha 25 anos.. era um cabra decidido, rico, acostumado a ser obedecido.  Os irmãos de Maria viram ali uma possibilidade incrível, pois o homem era o mais rico da cidade, e eles tomavam as decisões na própria família, já que o pai era falecido. Insistiram em fazer o casamento, mas ela não cedia. Finalmente, um ano depois, a pressão da família fez com que Maria aceitasse o casamento. Entretanto, ela já com 13 anos, estava de olho num outro caboclinho que por ela morria de amores. Ela não queria o holandês.. então combinou com o caboclinho que eles iriam até a igreja no dia marcado para o casamento dela com Joaquim, e enganariam  o padre: ao invés de casar com o holandês, ela se casaria com o caboclo. Mas não deu certo.. os irmãos perceberam algum engodo alí, e impediram o caboclo de comparecer na igreja. Então ela se uniu mesmo à Joaquim, pelo menos a deixariam em paz.

Ele, Joaquim, totalmente apaixonado.. ela com ódio dele.. como boa índia, bateu pé e não deixou ele se aproximar da cama dela por muito tempo.  A menina nem “moça” era, mas aprendeu que tinha que se defender e impor sua vontade a qualquer preço.  Situação que explica a valentia acentuada dela.

Os irmãos passaram a viver na fazenda do novo casal, de tanto que a visitavam. Exploravam Joaquim o quanto podiam, até os ternos dele usavam pra ir ao puteiro. Como Maria se recusava a uma vida conjugal, Joaquim frequentava muito a casa de tolerância, fazendo demonstrações de opulência:  enrolava cigarros em notas de 50 réis e pagava bebida pra todo mundo. Voltava muito tarde, bêbado em cima do cavalo, às vezes sozinho.. outras os cunhados o traziam. Maria xingava e mandava jogá-lo num quarto de hóspedes. E ficava cada dia mais brava!

Mas o tempo passa e ajeita tudo.. inclusive o casamento dos dois:  Maria passa a aceitar o marido, se afeiçoa a ele e o casamento termina por se consumar.  Os fatos que agora revelo, ocorrem exatamente neste momento da vida deles:  três filhos pequenos e ela já mais cordata, começando a gostar do marido.  Estavam, eu diria, ainda em lua de mel.

Finalmente vão os dois pela estrada rumo a Juazeiro, no melhor cavalo de Joaquim.. um puro sangue negro, grande e bufante, de pêlo e crina brilhando à luz da lua. Maria está na garupa, porque se recusou a ir no próprio cavalo. Tinha medo do lobisomem atacar o cavalo dela.  A lua imensa no céu ilumina toda planície abaixo da Serra do Araripe, vales e pradarias. O cavalo avança até que,  próximo de uma cacimba,  empaca  e se recusa a continuar.  As cacimbas eram nascentes de água cristalina, onde o povo se abastecia de água,  encontravam sombra e descansavam sob as árvores, pois era local úmido.  Joaquim tenta fazer o bicho continuar e o esporeia sem dó, mas o animal empina e tenta retornar na estrada. 

Nessa luta Joaquim desce do cavalo pra puxá-lo pelo estribo e nesse momento, um lobo muito grande sai das árvores. Maria começa a gritar. Joaquim puxa o facão amigo, com quem tinha total intimidade, e se lança na direção do lobo.  A luta é feroz.. o lobo se esquiva e Joaquim ataca sem dó, o lobo devolve o golpe e Joaquim pula com o facão na mão. Alguns minutos de luta feroz, e é, então, que ele consegue enfiar o facão na coxa do lobo. O animal pula uivando, mas o final do som é um gemido humano.  Joaquim quer perseguí-lo pois o sangue estava quente da luta, a adrenalina tinha dominado sua mente e ele só queria matar o lobo. Maria grita:  “Quim, pelo amor de Deus, vamos embora, Quim!!! Não me deixe aqui sozinha!!”

Joaquim percebe o medo da mulher e volta, sobe no cavalo dá meia volta no animal e retorna à fazenda. Ele fascinado pela cena, o sangue correndo forte pelo esforço e o prazer  da luta. Afinal ele tinha vencido um bicho desconhecido, parecida um lobo, mas só Deus sabia o que diabos era aquilo. Ela, quase morta de medo.  Acabou-se o passeio daquela noite.

No dia seguinte Joaquim sai pela fazenda procurando se havia alguém ferido..  e fica sabendo que um jovem havia se cortado por acidente, precisamente na coxa. O fazendeiro vai até lá saber dos detalhes.. era um caboclo forte, filho dos colonos, e estava com um corte feio na coxa.  Joaquim conversa com a família, pergunta se precisam de alguma ajuda e parte desejando as melhoras para o rapaz. Mas a cabeça ferve em turbilhões. Ele precisa resolver o que fazer, afinal tinha um lobisomem na fazenda dele e outros estavam em perigo. Volta pra casa e conversa com Maria que está mais apavorada que antes.  Joaquim pensa em  prender o rapaz até resolver o que fazer.  Por enquanto o caboclo estava ferido, nenhum mal poderia fazer durante aquela lua cheia.

No dia seguinte, Joaquim vai até a casa da família disposto a revelar o que sabia e tomar uma atitude. Certamente não deixaria a sua e outras famílias à mercê do lobo.  Mas encontra a casa vazia:  a família havia fugido durante a noite. Por mais que Joaquim procurasse, nunca mais conseguiu encontrar a família do lobisomem, tampouco se ouviu outras estórias de lobos nas redondezas. Creio que o lobo sabia que Joaquim era mais valente que ele e agora estava preparado, e preferiu desaparecer no sertão.

Ficou a estória que minha avó contava à noite para as crianças, colonos, parentes e aderentes.  Quando os filhos já estavam crescidos e queriam sair pro forró, (claro que falo dos homens) ela não deixava de jeito nenhum, principalmente se fosse noite de lua cheia. E se eles insistissem, tomavam era um coro de chicote de cavalo. Eles fugiam pela janela depois que ela dormia, retornando antes que ela acordasse. Afinal, não se brincava com dona Nenzinha.

Esta e outras histórias da família de Maria Alves  e Joaquim Passos me foram contadas por minha mãe.  Os olhos azuis esverdeados de mãe brilhavam e a empolgação dela crescia, enquanto partilhava esses eventos passados no sertão do Ceará. Eram os momentos mais adoráveis com ela. Guardei todas as estórias, prometendo a mim mesma que escreveria a história da família, porque é empolgante e cheia de aventuras.  Além disso, todos os descendentes  se sentiriam parte de uma aventura pessoal, sabendo que vieram de pessoas valentes, honestas e aventureiras, que desafiaram o próprio destino e nos trouxeram até aqui.



Maria Suares (dona Nenzinha) e Joaquim Passos




Luiz Gonzaga - playlist


Apesar de ser pernambucano, Luiz Gonzaga fugiu de casa ainda moço e foi pra Juazeiro do Norte no Ceará. Grande sanfoneiro e poeta, conquistou logo o Ceará e o nordeste com sua música e poesia irreverente, ficando conhecido como o rei do baião, rei da sanfona. Era o cantor favorito de Maria Leandro, minha mãe, quando ela cantava geralmente era alguma canção dele.

Forró: segundo a Enciclopédia da Música Brasileira (1998), a palavra trata-se de uma derivação do termo africano forrobodó,  sinônimo de festa, de arrasta-pé ou farra. Essa definição é a mais aceita entre os estudiosos da área. A referência é aos bailes populares no final do século 19. Nesta época era necessário molhar o piso de "chão batido", pra não levantar muita poeira, pois não havia revestimento.


Parte do livro ESTÓRIAS NORDESTINAS
Marcia Rodrigues – São Paulo – SP
Brasil - 2015


© Todos os direitos reservados. Não autorizada a reprodução. 
Marcia Rodrigues

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5 Comments

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Gostei de ler e relembrar esta história que mamãe tbm contava, e q deixava tds fascinados com as aventuras de dona Nê e sr Quinzinho. Maravilhoso td isso.

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Graças a Deus faço parte dessa família. Marcia quero comprar o livro prima .se ainda tiver exemplares me manda . resposta bjos prima

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Gente.. desculpa demorar tanto pra responder. Outros projetos me requisitarem. Mas vou terminar esse livro, é questão de honra. Bjs

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Olá! em breve reviso e publico seu comentário. Grata pelo seu tempo.

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